Bruno Guimarães: Atleta Active Sports na Cruce de los Andes

 

Nos dias 5, 6 e 7 de fevereiro ocorreu a 9ª edição da Cruce de los Andes, este ano realizada nas proximidades de San Carlos de Bariloche e de San Martin de los Andes, na Argentina. Esta é uma prova diferente, de aventura, e mesmo assim diferente na sua forma e estilo, em razão de promover a corrida por trechos de distâncias diferentes em 3 dias, com intervalos para pernoite em barracas e correndo em duplas.

 

Com este espírito desafiador, nosso atleta Bruno Guimarães se preparou durante meses junto com seu parceiro André Garbi. Foram treinos exaustivos e muita dedicação para superar os enormes obstáculos e muitas vezes a solidão. Dessa forma, segue um relato da trajetória dessa dupla durante o desafio.

Dia 1 – Aeroporto 1: Brasília/São Paulo, Aeroporto 2: São Paulo/Buenos Aires, Aeroporto 3 Buenos Aires/Neuquen. Primeiro dia encerrado (o dia inteiro, diga-se de passagem).

Dia 2 – Ônibus Neuquen/San Martin de Los Andes (o aeroporto de San Martin está fechado por conta das cinzas do vulcão Puyehue). Eduardo, Maurício e Flavinho incorporaram a tropa de insanos e vamo que vamo. Seis horas de baú, média de 40 km/h, visual quase desértico, jovem Flávio parecia que tinha tomado algum energético. Pense numa criança hiperativa... Em San Martin retiramos os kits com um casaco show de bola, prato, bandeja para cortar carne, copo, garrafa de chá, lenço de pescoço providencial, camiseta, número e chip, excelente! Tivemos a maravilhosa informação de que deveríamos esta às 4h25min da manhã seguinte no ponto de recolhimento dos atletas para deslocar ao acampamento. Então o sábio Daso, num lampejo de sabedoria, percebeu que havia atletas demais e que, portanto, deveria haver transporte a manhã inteira. Conversa aqui, conversa ali, descobrimos que podíamos embarcar nas Vans às 8h15 para irmos ao acampamento. Nada como dormir bem dois dias antes da prova.

Dia 3 – Seguimos à escola para sermos deslocados ao acampamento base, 1h30min de estrada de terra em uma van. Paramos na fronteira Argentina/Chile, check de passaportes e trocamos o transporte, agora um ônibus retirado do filme de Indiana Jones, mais 20 minutos de viagem, e finalmente chegamos ao acampamento 2, ou seja, ainda tínhamos que pegar a balsa para partirmos ao acampamento 1. Já era meio dia e sem pestanejar descobri onde era a tenda do rango. Obviamente avisei a todos a tempo de pegarmos o início da fila.

Após o rango fomos informados que a balsa chegaria às 16h. O jeito foi aguardar e nadar no lago pra relaxar, tomar o banho do dia. É isso aí galera, o chuveiro era o lago! Por fim embarcamos. O jovem Everton sabiamente conseguiu encontrar uma sala vip com cadeiras para nós. Caso contrário, ficaríamos na plataforma externa da embarcação amontoados. Por fim, após três aviões, dois ônibus, uma van e uma balsa, só faltou um jegue pra piada ficar completa! Chegamos ao acampamento 1, de cara uma constatação, havia aproximadamente 15 banheiros para 1500 pessoas. Conclusão: “mato, pra que te quero?”. Reconhecido o local, barracas encontradas, vamos para o jantar. Fila básica, bucho cheio e vamos dormir.

Dia 4 / 1º Dia de prova: largada 8h30. Faríamos a volta na Cordilheira e retornaríamos ao mesmo acampamento. Detalhe: tínhamos que andar 2 km e atravessar uma ponte, também retirada do filme do Indiana Jones. Ela tinha número limitado de pessoas pra atravessar, perrengue pré- prova. Por fim encontramos após a ponte um jovem com um laptop e uma esteira de controle de chips no chão, somente isso. Bruno pergunta “és a largada?” e o jovem confirma. Confesso que não acreditei que aquele beco de mato sem portal ou qualquer tipo de faixa era a largada, mas tudo bem, vamos nessa. Caracas! Finalmente aqui estamos no Cruce e a corrida finalmente começou.

De início algumas subidas tranquilas e trechos planos, vamos nessa! Corrida controlada. Percebemos que existem atletas de todos os tipos e idades, e que, por mais incrível que pareça, esta prova é realizada por pessoas normais, com um parafuso a menos é claro! Aproximadamente 8 km percorridos, e chegaram as subidas infinitas, o sertão da Volta à Ilha é plano perto dessa trilha. Caminhamos sem medo de ser feliz e sem nenhum peso na consciência, até que na altura do km 14, começamos a entrar na neve e na Cordilheira, sempre subindo, é claro. Quando se imagina que está por acabar as subidas, nos deparamos com cerca de 600m na neve com inclinação nível escada de apartamento, tipo 50 graus, só com foto pra entender. Nisso já estávamos com 3 horas de prova, e ao término desta subida insana, cabe destacar o visual de cinema, “INEXPLICÁVEL”, o pico da Cordilheira a poucos metros ao nosso lado e outros diversos picos abaixo de nós, “SENSACIONAL”, mas como aquilo era uma prova e não um passeio, tiramos algumas fotos e back to work. Fomos dar uma volta em torno do pico da Cordilheira, volta que não acabava nunca, mais ou menos a volta de 6 km do Parque. Na neve, é claro.

Até que finalmente vamos retornar, descidas à moda da casa, 1 km pra baixo na neve e na bagaceira, jovem Bruno no ski bunda. Gritarias a parte, da mesma forma que a neve apareceu, desapareceu e entramos em um terreno todo pedregoso, extremamente perigoso, onde um atleta inclusive quebrou a perna. Mas era descida, portanto irmão, trote quando possível, corrida quando viável. Queríamos terminar logo.

Daí ao final era descida que não acabava mais, e claro, sentando o chinelo, finalizamos ilesos e levemente cansados os 38km que valiam por 60km. Conseguimos almoçar tranquilamente, um rango até razoável, fazer uma massagem, descansar e aguardar os companheiros que foram chegando, felizes e cansados como todo mundo. Foi o tempo de falarmos sobre a prova e preparar o espírito para o dia seguinte.

Dia 4 / 2º Dia de Prova: Vontade de ficar na barraca, mas logo o jovem Bruno chama. Levamos as mochilas para a organização, pois sairíamos correndo do acampamento 2 até o acampamento 1, faríamos em terra o trecho da balsa.

O café da manhã: Roscas cookies e pêssego, tudo que a prova disponibilizou foi isso! Detalhe, só podia pegar 1 pêssego. O jeito foi jogar uma barra de cereal vitaminada pra dentro e meter as caras.

Início tranquilo, pernas meio doloridas, mas nada preocupante “AINDA”. Conseguimos correr 10km pra 50 minutos, então pensei “hoje vamos arrebentar” até que chegaram as malditas subidas! Meu irmão, daí em diante dor e silêncio imperaram nas trilhas. Chegamos a ficar 2 horas sem conversar, sem sequer olhar um para o outro. Cheguei a ficar alguns minutos sem sentir os braços, pensei na possibilidade de desmaiar e tratei de ficar abrindo e fechando as mãos, mas logo parei, porque exigia muito esforço. Acho que estávamos com aproximadamente 30km e as pirambeiras pareciam estar chegando ao fim. Aviso ao jovem Bruno ”descidas a frente” (o aviso tem a finalidade de preparar a mente e o corpo para retornar a correr) e ele me diz: “Que descida o que? Isso é uma subida”. Lascou. “E agora? Quem tá certo?”, pensei. Respondi: “eu vejo uma descida, mas se você insistir eu acredito que é uma subida”. Para nossa sorte era descida, e novamente voltamos a correr, porém agora doía tudo, mas como a cabeça que manda, aceleramos ao máximo.

Sabíamos que este trecho era de 41km, contudo quando chegamos no quadragésimo primeiro km, chegamos na orla do lago, a 2km da chegada, e pra piorar o restante tinha que ser feito às margens do lago, ou dentro ou nas pedras. Muitas pessoas chegaram molhadas às 8h da noite.

*Cabe destacar, eu e o Bruno conseguimos pegar as nossas mochilas quando chegamos, o Leandro e a Bruna esperaram um pouco mais, contudo todas as outras duplas (Daso/ Maurício, Flávio/Eduardo, Beth/ Everthon, Édio/Alexei) que chegaram mais tarde, não pegaram suas mochilas, pois a balsa havia quebrado. Lascou com a galera, disponibilizamos todos os casacos, toucas e saco de dormir, e ainda assim o jovem Maurício precisou ser socorrido por hipotermia e o jovem Daso tomou soro pra se recuperar.

Dia 5/ 3º Dia: Dia D, o dia de entender que tudo tem limite, mas que muitas vezes esse limite é bem maior do que você imagina. Pensei “não vamos andar hoje, não vamos andar hoje! Hoje ninguém vai nos passar”. Claro que não disse ao Bruno, tá maluco? Início da corrida, amigos, não é brincadeira. O Ironman virou brincadeira de criança. Pra correr no plano doía, na descida doía mais ainda. Por incrível que pareça onde doía menos era na subida. Pois bem, adotei a seguinte tática: “vou no ritmo do Bruno custe o que custar e quando ele fraquejar eu alucino na frente, afinal eram somente 21km”; E assim procedi. Parada obrigatória na fronteira, saca o passaporte recebe o carimbo de entrada na argentina e segue batido. Estava com meu polar marcando 1 hora de prova, resolvi criar coragem e perguntar ao Bruno quantos km havíamos rodado. Para graça divina, já tínhamos passado dos 12km. Entramos em uma trilha super bonita de árvores com alguns trechos de descidas e subidas (não conseguimos, andamos em alguns é verdade, mas corremos a maioria), e por volta do km 15 pude constatar que a concepção de dor tem dois patamares acima dos que eu conhecia no Ironman. Foi um show de gritaria, de ambos, mas nada de fraquejar.

E não é que no último km, duas duplas de casais nos ultrapassaram? Fala sério! E mais uma dupla masculina se aproximava! Brunão sutilmente reduziu a velocidade, e eu passei a frente. Me recusava a deixar os jovens passarem, (coisa de doido! Na verdade era desculpa pra acelerar e chegar logo), e o jovem conseguiu continuar comigo, até que encontramos uma jovem num banquinho às margens do lago, perguntando nosso número. Respondemos e passamos batido. Logo atrás dela estavam uma balsa e uma lancha transportando os atletas para o outro lado, e um cidadão gritando pra nós, “senhores, la prueba ya terminó”. Respondi “como assim?” e ele falou em portunhol, “la prova terminó”. “É isso? Corremos que nem uns malucos e nem sequer o portal encontramos?”. Fiquei feliz e decepcionado ao mesmo tempo. “Cadê o maldito portal que tanto víamos no youtube?”. Merecíamos finalizar nele.

Caminhamos mais ou menos 1km, atravessamos uma pontezinha velha e quando vimos, lá estava o portal de chegada, gigante com aquela galera gritando. Não entendemos nada, mas tudo bem, vamos correr até lá, porque afinal precisamos fechar com honras.

Glória total, ficamos na chegada aguardando todos os outros companheiros da T.O.P. Chegarem, e assim ocorreu, todos conseguiram, cada um no seu tempo, mas todos chegaram com honras e glórias, valendo destacar a dupla Maurício e Daso que superaram bravamente as dificuldades. Nobre Daso, com a garganta bichada, sintomas de gripe a semana inteira, e em nenhum momento cogitou desistir, exemplo de determinação; Beth e Everton , a jovem pela determinação e o jovem por ser raçudo e teimoso, mesmo sem treinar nas últimas semanas por estar com uma pseudo canelite, conseguiu completar e nos divertir a viagem toda; Flavinho e Eduardo, figuraças, menino maluquinho e o monge respectivamente, a dupla Édio e Alexei que tiraram de Letra, Bruna Vilarim e o mestre Leandro Macedo, a jovem Bruna passou batido pelas maratonas preferiu as ultras, essa Vilarim!!! Ao mestre não cabe comentários, o currículo diz tudo. Ah, e por fim, não deixando de lembrar a dupla que realizou a corrida de dois trechos, Elias e Renato, que ano que vem prometem participar da corrida completa.

Finalizando quero agradecer meu companheiro de prova, Bruno Guima, que infelizmente teve que diminuir um pouco o ritmo pra me acompanhar nos dois primeiros dias de prova, mas conforme havíamos combinado, eu era a parte racional da equipe e o jovem, a parte emocional. Galera, uma coisa eu posso garantir, emoção foi o que não faltou. Brunão, vai se lascar miserável! Da próxima vez chama outro desavisado pra participar dessa loucura! Rs.

Para informações sobre esta prova: http://elcrucecolumbia.com/

 
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